O que a redução histórica das queimadas na Amazônia ensina sobre a proteção da água

Por Mariane Leme*

A Amazônia brasileira registrou, em 2025, a menor área queimada desde o início da série histórica do MapBiomas Fogo, iniciada em 1985. Segundo o levantamento divulgado pela BBC, cerca de 3,1 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo, uma redução de aproximadamente 80% em relação aos 15,8 milhões de hectares queimados em 2024, ano marcado por incêndios históricos favorecidos por condições climáticas extremas e pela ação humana. Em todo o Brasil, a área queimada também caiu significativamente, passando de cerca de 30 milhões para 12,7 milhões de hectares.

Os números representam um avanço importante, mas especialistas alertam que ainda não são suficientes para caracterizar uma mudança definitiva de cenário. Para a pesquisadora Vera Arruda, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordenadora do MapBiomas Fogo, a redução demonstra que é possível diminuir as áreas queimadas, porém a prevenção deve continuar sendo prioridade, especialmente diante da influência das mudanças climáticas e da possibilidade de novas estiagens severas.

Mais do que preservar a biodiversidade, reduzir as queimadas significa proteger um dos principais reguladores do clima e da disponibilidade hídrica da América do Sul.

A floresta também produz água

Quando se fala na importância da Amazônia, é comum destacar seu papel como maior floresta tropical do planeta ou como grande estoque de carbono. Entretanto, sua contribuição para o ciclo hidrológico é igualmente estratégica.

As árvores retiram água do solo e a devolvem à atmosfera por meio da evapotranspiração. Estima-se que uma árvore de grande porte possa liberar centenas de litros de água por dia na forma de vapor. Em escala amazônica, esse processo movimenta bilhões de toneladas de água diariamente, formando enormes massas de umidade que alimentam a circulação atmosférica sobre o continente.

Esse mecanismo funciona como uma verdadeira bomba de umidade natural, responsável por manter parte do equilíbrio climático da América do Sul.

Os “rios voadores” e as chuvas no Sudeste

O vapor d’água liberado pela Floresta Amazônica é transportado pelos ventos em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, contribuindo para a formação dos chamados rios voadores, correntes atmosféricas invisíveis que ajudam a abastecer sistemas meteorológicos responsáveis pelas chuvas nessas regiões.

Embora as precipitações dependam de diversos fatores climáticos, pesquisas conduzidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) demonstram que a conservação da Amazônia exerce papel importante na manutenção desse transporte de umidade, influenciando a disponibilidade de água para agricultura, geração de energia e abastecimento público.

Quando grandes áreas da floresta são degradadas por queimadas e desmatamento, esse processo tende a perder eficiência, aumentando a vulnerabilidade a períodos de estiagem.

A conservação também importa nas Bacias PCJ

A proteção da Amazônia é essencial, mas não substitui a conservação das florestas existentes nas próprias bacias hidrográficas. Matas ciliares, áreas de preservação permanente, fragmentos florestais e nascentes desempenham funções fundamentais para a infiltração da água no solo, a redução da erosão, o controle do assoreamento dos rios e a manutenção da qualidade da água.

Nas Bacias PCJ, essa relação pode ser observada em iniciativas de restauração florestal, recuperação de nascentes e proteção de mananciais, que fortalecem a resiliência hídrica regional e contribuem para reduzir os impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Um dos exemplos está na Serra do Japi, importante remanescente de Mata Atlântica no planalto paulista, reconhecido pela riqueza hídrica e pela biodiversidade florística e faunística. A área também exerce papel importante para o estabelecimento de corredores de fauna entre diferentes blocos de mata.

É nesse território que o Consórcio PCJ conduz o Projeto Olhos da Serra, iniciativa patrocinada pela Coca-Cola Brasil e pela Coca-Cola FEMSA Brasil, voltada à conservação dos recursos hídricos e naturais da região.

Criado em janeiro de 2022, o projeto está em sua terceira etapa, entre as iniciativas estão ações de saneamento rural, captação e armazenamento de água da chuva, doação e plantio de mudas, educação ambiental, monitoramento de invasões na Reserva Biológica e prevenção e combate aos incêndios florestais.

Um dos destaques desta etapa é o reforço do monitoramento dos incêndios florestais: uma câmera de alta resolução, instalada no alto da torre da Rádio Dumont FM, em Jundiaí, possui alcance aproximado de 20 quilômetros e rotação de 360 graus.

O equipamento é integrado ao software Pantera, desenvolvido pela climatech umgrauemeio, que utiliza inteligência artificial para identificar incêndios florestais com maior agilidade. As imagens são acompanhadas pelo Centro de Controle Operacional da Guarda Municipal de Jundiaí.

A experiência do Projeto Olhos da Serra permite aproximar a discussão sobre a redução das queimadas no Brasil da realidade das Bacias PCJ. Enquanto os dados nacionais mostram a importância da redução das áreas atingidas pelo fogo, as ações desenvolvidas na Serra do Japi mostram como monitoramento, prevenção e resposta rápida podem contribuir para proteger uma área florestal estratégica para a região.

A prevenção de incêndios ajuda a manter a cobertura vegetal, proteger o solo e conservar processos naturais relacionados ao ciclo da água. Quando associada ao reflorestamento, ao saneamento rural, à educação ambiental e ao monitoramento do território, amplia a capacidade de conservação dos recursos naturais.

Essa relação reforça uma premissa importante para a segurança hídrica: a proteção da água começa também pela proteção do território onde ela nasce e circula.

Da Amazônia à Serra do Japi, a redução das queimadas representa, nesse sentido, mais do que uma estatística ambiental. É também um indicador da capacidade de proteger os processos naturais que sustentam a disponibilidade e a qualidade da água.

Fontes

MAPBIOMAS FOGO. Relatório Anual do Fogo 2025.
BBC News. Brazil’s Amazon sees sharp decline in size of area burned in 2025. 2026.
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Estudos sobre evapotranspiração e rios voadores.
NOBRE, Antonio Donato. O Futuro Climático da Amazônia. Articulação Regional Amazônica, 2014.
NOBRE, Carlos A. et al. Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 2016.

*Mariane Leme é engenheira ambiental, mestra e doutora em engenharia civil – saneamento e ambiente. No Consórcio PCJ exerce a função de coordenadora de projetos.

Foto: Christopher Borges / Pexels

Compartilhe essa matéria via:

Facebook
Twitter
LinkedIn

Newsletter

Assine a Newsletter do Consórcio PCJ e seja o primeiro a saber sobre projetos, ações de conservação e eventos importantes que acontecerão no ano. Além de notícias em primeira mão sobre todo o universo da água.

WhatsApp

Siga o canal do Consórcio PCJ no WhatsApp e acompanhe as notícias em primeira mão.

Outras matérias

17 de julho de 2026

Por Aguinaldo Brito Junior* e Rafael Leite** “A bandeira no estádio é um estandarte, a flâmula pendurada na parede do quarto, o distintivo na camisa…

2 de julho de 2026

*Por Ana Ardito Quando pensamos no Japão logo vêm à mente os trens-bala, os robôs e as cidades futuristas, além da gastronomia. Porém, após percorrer…

10 de junho de 2026

Por Mariane Leme* A Copa do Mundo FIFA 2026 estreia nesta semana e promete entrar para a história não apenas por ser a primeira edição…

Pular para o conteúdo