Mais que tecnologia: o que o Japão me ensinou sobre sustentabilidade

*Por Ana Ardito

Quando pensamos no Japão logo vêm à mente os trens-bala, os robôs e as cidades futuristas, além da gastronomia. Porém, após percorrer as ruas de Tóquio, Kyoto, Osaka, Hiroshima e Miyajima, percebi que a maior tecnologia do país não está nas máquinas, mas sim na forma como as pessoas vivem com honestidade, disciplina, respeito ao próximo e no compromisso diário com a sustentabilidade, ou seja, no modo como cada cidadão entende seu papel na sociedade. Isso foi o que mais me marcou durante a viagem de 20 dias que fiz a esse curioso e encantador país.

Uma das primeiras experiências que vivi aconteceu logo na visita à Ilha de Miyajima. Ao comprar o ticket para a travessia, adquiri também um segundo bilhete referente a um imposto. Quando fui passar pela catraca, um funcionário pediu que eu aguardasse. Confesso que pensei ter cometido algum erro. Mas ele apenas explicou que aquele segundo ticket não era necessário naquele momento e providenciou a devolução do valor que eu havia pago. Era uma quantia pequena. Provavelmente, ninguém perceberia se ele simplesmente deixasse passar. Mas aquela atitude ficou na minha memória. A honestidade ali não parecia algo extraordinário, e sim parte da rotina.

Outro aspecto marcante foi o respeito ao próximo. No transporte público, mesmo nos horários de maior movimento, as pessoas mantêm o silêncio. Ninguém parece preocupado em observar o celular alheio, ouvir conversas ou invadir a privacidade de quem está ao lado. Notei que sequer utilizam películas de privacidade nos aparelhos. Cada um segue seu caminho respeitando o espaço e a individualidade do outro.

Essa organização também aparece nas filas. Em estações lotadas de metrô, milhares de pessoas aguardam sobre as marcações do piso, formando filas perfeitamente alinhadas. Todos esperam os passageiros desembarcarem antes de entrar no vagão. Existe também um compromisso impressionante com a pontualidade. Os horários são levados extremamente a sério. Os trens chegam exatamente quando previsto, e toda a dinâmica do transporte público funciona em torno dessa precisão. Mais do que eficiência, é uma demonstração de respeito pelo tempo das outras pessoas.

A gentileza também faz parte do cotidiano. Em diversas ocasiões, quando eu procurava um banheiro, tentava entender uma estação ou tinha dúvidas sobre algum caminho, sempre havia alguém disposto a ajudar, independentemente, se falavam inglês ou não. Não era apenas apontar uma direção. Muitas vezes a pessoa caminhava comigo até o local ou fazia questão de garantir que eu havia entendido corretamente. 

CADA UM É RESPONSÁVEL PELO SEU RESÍDUO

Outro ponto que me surpreendeu foi a relação dos japoneses com o gerenciamento dos seus resíduos. Antes de sair do hotel, fui avisada para aproveitar qualquer lixeira que encontrasse pelo caminho. Achei curioso… até descobrir que encontrar uma lixeira em cidades como Tóquio ou Kyoto é quase uma missão impossível. Agora, se você pensa que isso é motivo para que as cidades acumulem lixo, está muito enganado. Os japoneses carregam consigo o próprio lixo até encontrar um local adequado para descartá-lo, mantendo as ruas impecavelmente limpas. A ideia é que cada um seja responsável pelo seu próprio resíduo.

Quando finalmente encontrei algumas lixeiras, percebi outro detalhe interessante: a maioria estava ao lado das tradicionais máquinas automáticas de bebidas. E não eram lixeiras comuns. A abertura tinha exatamente o tamanho de uma garrafa ou de uma lata, impedindo que outros tipos de resíduos fossem descartados ali. Placas indicavam claramente qual material deveria ser depositado em cada compartimento.

É uma solução simples, mas extremamente eficiente. O objetivo é preservar a qualidade da reciclagem, evitando a contaminação dos materiais e facilitando todo o processo de reaproveitamento.

Essa preocupação faz sentido em um país que possui um dos sistemas de separação de resíduos mais rigorosos do mundo. Em muitas cidades, os moradores precisam separar cuidadosamente papel, plástico, vidro, latas, embalagens e resíduos orgânicos, respeitando dias específicos para cada tipo de coleta. Isso é facilmente constatado pelas manhãs, enquanto caminhava pelas ruas e via os resíduos devidamente separados. A reciclagem não é vista apenas como uma etapa do descarte, mas como uma responsabilidade compartilhada.

Outro hábito curioso também está ligado à limpeza das cidades: comer enquanto se caminha pelas ruas não é um hábito comum e, em muitos contextos, é considerado falta de educação. A lógica é simples: se você consome um alimento, também é responsável por guardar a embalagem até encontrar o local adequado para descartá-la. Assim, evita-se que resíduos sejam deixados pelo caminho e preserva-se a limpeza dos espaços públicos.

BANHEIROS SUSTENTÁVEIS

Um detalhe que merece destaque são os banheiros públicos. Eles são exatamente como vemos na internet: gratuitos (ao contrário de muitos na Europa), extremamente limpos e equipados com tecnologia de limpeza automática. Seja em parques, estações de trem ou áreas turísticas, encontrei banheiros muito bem cuidados.

Na estrada, encontrei um banheiro equipado com um sistema que utiliza processos de compostagem, transformando os resíduos em adubo por meio da decomposição controlada. O que poderia ser apenas um espaço de uso coletivo também se torna uma solução ambiental, mostrando que a sustentabilidade pode estar presente até nos detalhes que muitas vezes passam despercebidos.

SAGRADA ÁGUA

Em Kyoto, ao percorrer o Caminho do Filósofo, cercado por árvores, templos e um rio de águas cristalinas, conferi como a natureza é preservada e respeitada pela comunidade japonesa

Nos templos, a água possui um significado especial. Antes de entrar, os visitantes realizam um ritual de purificação das mãos e da boca. Ali, a água não representa apenas um recurso natural. Ela simboliza limpeza, respeito e renovação espiritual.

Esse respeito pela água também aparece no cotidiano. Em praticamente todos os restaurantes, ela é oferecida gratuitamente aos clientes. Nas ruas, as tradicionais máquinas automáticas disponibilizam garrafas de água refrigerada por preços bastante acessíveis, inclusive em pontos turísticos.

Essa relação também se reflete na gestão dos recursos hídricos. Segundo dados do governo japonês, o país possui uma das menores taxas de perdas de água tratada do mundo, cerca de 2%. Esse resultado é consequência de investimentos permanentes na modernização das redes de distribuição, no monitoramento dos sistemas e na manutenção preventiva das tubulações, reduzindo desperdícios e garantindo um abastecimento altamente eficiente.

Outro lugar que me fez refletir profundamente foi Hiroshima. Visitar o Parque Memorial da Paz é uma experiência que mistura silêncio, tristeza e esperança. É difícil imaginar que uma cidade devastada pela bomba atômica, em 1945, tenha conseguido se reconstruir de forma tão organizada e acolhedora. Caminhar por suas ruas me fez entender que sustentabilidade também passa pela capacidade de reconstruir. É aprender com os erros, planejar o futuro e criar cidades mais humanas. Assim como a água encontra caminhos para seguir seu curso, Hiroshima mostra que é possível transformar uma das maiores tragédias da história em um exemplo de esperança e reconstrução.

A CONSTRUÇÃO COLETIVA DA SUSTENTABILIDADE

A eficiência do sistema de abastecimento, a limpeza das cidades, a organização dos espaços públicos e a conservação ambiental não existem apenas porque há tecnologia. Tudo isso é reflexo de uma sociedade que valoriza os recursos naturais, respeita o espaço coletivo e entende que preservar é uma responsabilidade compartilhada.

Compreendi que preservar o meio ambiente começa muito antes das políticas públicas. Começa na educação, no exemplo, nas pequenas escolhas diárias e no compromisso coletivo com o bem comum.

A gestão sustentável dos recursos hídricos depende de investimentos, planejamento e inovação, mas também da construção de uma sociedade que compreenda o valor real da água e assuma sua responsabilidade na preservação desse recurso tão essencial para a vida.

Talvez essa tenha sido a maior lição que trouxe do Japão: a sustentabilidade não acontece por acaso. Ela é construída todos os dias, nas pequenas atitudes, no respeito ao coletivo e no compromisso de cuidar das pessoas, da natureza e da água.

*Ana Ardito é jornalista, formada pela PUC-Campinas, pós-graduada em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero e presta apoio à equipe de comunicação do Consórcio PCJ. Visitou o Japão em maio de 2026.

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