Por Mariane Leme*
A Copa do Mundo FIFA 2026 estreia nesta semana e promete entrar para a história não apenas por ser a primeira edição com 48 seleções e 104 partidas, mas também pelos debates relacionados à sustentabilidade e aos impactos ambientais dos megaeventos esportivos. Realizado de forma conjunta entre Estados Unidos, Canadá e México, o torneio será disputado em 16 cidades-sede e levanta discussões importantes sobre infraestrutura, emissões de carbono e adaptação climática.
Quando a candidatura conjunta foi escolhida pela FIFA, um dos principais compromissos apresentados foi justamente o de estabelecer novos padrões de sustentabilidade ambiental no esporte, já que de acordo com o relatório FIFA’s Climate Blind Spot: The Men’s World Cup in a Warming World, há previsão de que a competição possa gerar 9,02 milhões de toneladas de emissões de CO2, quase o dobro das quatro edições anteriores (4,71 milhões), reforçando a necessidade de priorizar o uso de estruturas já existentes e evitar grandes obras de construção civil.
Dessa maneira, um dos principais diferenciais desta Copa será a utilização de arenas já consolidadas no cenário esportivo internacional. Diferentemente de edições anteriores, não houve construção de novos estádios exclusivamente para o torneio, o que representa uma redução significativa dos impactos ambientais associados às obras de grande porte.
De acordo com análises internacionais publicadas pela organização científica Scientists for Global Responsibility e pelo relatório “2026 Men’s World Cup: Climate Footprint Analysis”, a ausência de novas construções poderá evitar a emissão de aproximadamente 1,89 milhão de toneladas de CO2 equivalente (CO2e), quantidade normalmente associada à produção de materiais, transporte, consumo energético e execução das obras.
Além disso, os estádios selecionados já possuem operação contínua ao longo do ano, recebendo partidas de ligas profissionais como NFL, Major League Soccer e Liga MX, reduzindo o risco de abandono ou subutilização das estruturas após o evento.
O cenário contrasta com edições anteriores da Copa do Mundo. Na África do Sul, em 2010, diversos estádios continuaram gerando elevados custos de manutenção após a competição. No Brasil, em 2014, alguns estádios construídos ou reformados para o torneio enfrentaram baixa utilização após o evento e na Rússia, em 2018, parte das arenas foi construída em cidades sem tradição de clubes da primeira divisão nacional.
Arenas sustentáveis e certificações ambientais
Outro destaque da Copa 2026 é a presença de estádios com certificações ambientais reconhecidas internacionalmente, como a LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), desenvolvida pelo U.S. Green Building Council (USGBC) e voltada à eficiência energética e sustentabilidade em edificações.
As iniciativas incluem sistemas de eficiência energética, iluminação LED, reaproveitamento de resíduos, compostagem, uso racional da água e incentivo a fontes renováveis de energia.
Apesar dos avanços relacionados à infraestrutura, especialistas apontam que o principal impacto ambiental da Copa 2026 estará ligado ao transporte aéreo. Com partidas distribuídas entre três países e 16 cidades-sede, os deslocamentos de seleções, equipes técnicas, torcedores e imprensa deverão responder por aproximadamente 86% das emissões totais de carbono do torneio.
Segundo estimativas do relatório “2026 Men’s World Cup: Climate Footprint Analysis”, produzido por pesquisadores ligados à Scientists for Global Responsibility, as emissões relacionadas ao transporte poderão alcançar cerca de 7,72 milhões de toneladas de CO2, valor significativamente superior à média histórica de edições anteriores da competição. Vale destacar que o aumento no número de seleções e partidas também amplia a dimensão logística do evento e seus impactos ambientais.
Calor extremo preocupa especialistas
Além das emissões de carbono, outro tema que vem chamando atenção é o risco associado às altas temperaturas durante o período da competição, disputada entre junho e julho. Cidades como Houston, Dallas e regiões próximas a Phoenix já registram episódios frequentes de calor extremo no verão do hemisfério norte, cenário que pode representar riscos à saúde de atletas, trabalhadores e torcedores.
A Copa do Mundo de Clubes, realizada nos Estados Unidos entre junho e julho de 2025, serviu como parâmetro de análise para a disputa de seleções. Das 57 partidas, 31 foram disputadas com uma Temperatura Global de Bulbo Úmido acima de 28°C, nível considerado perigoso e difícil para o resfriamento natural do corpo. A medida leva em conta a temperatura do ar, o calor radiante da luz solar e o efeito refrescante da evaporação e circulação do ar.
Relatórios internacionais sobre clima urbano e eventos extremos, publicados por instituições como o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) e a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), apontam que parte das sedes poderá necessitar de medidas adicionais de adaptação climática, como pausas para resfriamento, ampliação de áreas de sombra, reforço na hidratação e estratégias de mitigação térmica, medidas que a FIFA estabeleceu após a experiência com o Mundial de Clubes, como pausas obrigatórias de três minutos e bancos climatizados em todos os estádios.
A Copa do Mundo 2026 reforça como grandes eventos esportivos passaram a incorporar temas relacionados à sustentabilidade, eficiência energética, gestão de resíduos, mobilidade e mudanças climáticas.
Ao mesmo tempo em que o torneio apresenta avanços importantes ao priorizar infraestrutura já existente e arenas com certificações ambientais, também evidencia os desafios relacionados às emissões geradas pelo transporte internacional e à adaptação climática em um cenário de temperaturas cada vez mais elevadas.
A discussão mostra que sustentabilidade em megaeventos vai além da construção de estádios: envolve planejamento urbano, mobilidade, consumo consciente, eficiência no uso de recursos naturais e estratégias para a redução de impactos ambientais.
Fontes
• FIFA – Sustainability Strategy for the FIFA World Cup 2026
https://www.fifa.com/social-impact/sustainability
• Scientists for Global Responsibility – Climate Footprint Analysis of the 2026 FIFA World Cup
https://www.sgr.org.uk
• U.S. Green Building Council (USGBC) – Certificação LEED
https://www.usgbc.org/leed
• NOAA – National Oceanic and Atmospheric Administration
https://www.noaa.gov
• IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change
https://www.ipcc.ch
• The Conversation – A Fifa poderia fazer mais para proteger os jogadores do calor na Copa do Mundo?https://theconversation.com/a-fifa-poderia-fazer-mais-para-proteger-os-jogadores-do-calor-na-copa-do-mundo-284404
• BBC – Cientistas alertam para calor na Copa do Mundo e dizem que Fifa coloca jogadores em riscohttps://www.bbc.com/portuguese/articles/cx21j04pe3no
• SGR – FIFA’s Climate Blind Spot: The Men’s World Cup in a Warming Worldhttps://www.sgr.org.uk/publications/fifa-s-climate-blind-spot-men-s-world-cup-warming-world
Coordenadora de Projetos do Consórcio PCJ – Engenheira Ambiental, com Mestrado e Doutorado em Engenharia Civil – Saneamento e Ambiente
Imagem: Presse Sports