Do futebol à gestão hídrica: como a inteligência artificial apoia decisões estratégicas

Por Aguinaldo Brito Junior* e Rafael Leite**

“A bandeira no estádio é um estandarte, a flâmula pendurada na parede do quarto, o distintivo na camisa do uniforme, que coisa linda é uma partida de futebol!”. Como se vê na letra da clássica música do grupo Skank, o futebol mexe com várias emoções, especialmente, quando sob tensão de um jogo decisivo, um lance pode ser decidido por centímetros. Um impedimento, um toque na bola ou uma falta decisiva exigem análises cada vez mais precisas para que a arbitragem tome a melhor decisão possível e a mais justa. Para isso, o esporte passou a contar com um importante aliado: a tecnologia.

O VAR (Video Assistant Referee), os sensores instalados na bola, os sistemas de rastreamento dos atletas e as ferramentas de inteligência artificial transformaram a forma como o futebol é jogado, analisado e arbitrado. Vale a pena destacar que tecnologias semelhantes também estão revolucionando outra área essencial para a sociedade: a gestão dos recursos hídricos e o saneamento.

Embora pareçam universos completamente distintos, futebol e gestão da água compartilham um desafio em comum: a necessidade de tomar decisões rápidas, precisas e baseadas em dados confiáveis.

O jogo dos dados

O VAR fez sua estreia na Copa do Mundo, em 2018, na Rússia, e utiliza diversas câmeras posicionadas em diferentes pontos do estádio para revisar lances e auxiliar a arbitragem. Em competições internacionais, tecnologias mais avançadas permitem monitorar a posição dos jogadores e da bola em tempo real, utilizando sensores e sistemas de inteligência artificial capazes de analisar milhares de informações por segundo.

Na gestão hídrica, a lógica é exatamente a mesma. Sensores instalados em redes de abastecimento, reservatórios, estações de tratamento e corpos d’água monitoram continuamente parâmetros como vazão, pressão, nível e qualidade da água. Essas informações são transmitidas para centros de controle, onde sistemas computacionais auxiliam técnicos e gestores na operação dos sistemas.

Assim como o VAR oferece uma nova perspectiva sobre um lance em campo, as tecnologias de monitoramento permitem uma visão mais ampla e precisa dos sistemas hídricos.

Quando a inteligência artificial entra em campo

Além de auxiliar em decisões de arbitragem, algoritmos são utilizados para analisar desempenho de atletas, prever comportamentos táticos e interpretar imagens em tempo real. A tecnologia tornou-se uma ferramenta estratégica para clubes, seleções e entidades esportivas.

Na gestão dos recursos hídricos, a aplicação segue o mesmo princípio: A partir da análise de grandes volumes de dados, sistemas inteligentes conseguem identificar padrões e antecipar situações que poderiam passar despercebidas em análises convencionais. Gêmeos digitais de sistemas de abastecimento auxiliam empresas do setor e serviços de água a preverem situações e melhorar o planejamento e ações de contingenciamento.

Essa realidade já está presente em iniciativas desenvolvidas por associados do Consórcio PCJ. Um exemplo é a ArcelorMittal Brasil, vencedora do Prêmio Beija-Flor pela Água no 9º Prêmio Ação pela Água (link), principal reconhecimento da premiação e concedido ao projeto de maior destaque entre todas as iniciativas inscritas.

O projeto “Estudo de Previsibilidade de Bacias Hidrográficas” analisa as condições das bacias dos Rios Paraíba do Sul, Doce e Piracicaba para antecipar os impactos das mudanças climáticas sobre a disponibilidade hídrica. A iniciativa envolveu visitas técnicas, levantamentos de campo, análises físicas e hidrológicas e avaliação de eventos extremos, resultando no desenvolvimento de uma plataforma digital voltada ao monitoramento e à gestão dos recursos hídricos.

Com base em sensoriamento avançado, inteligência artificial e modelagem hidrológica, o sistema realiza análises preditivas, monitora indicadores em tempo real e simula cenários futuros de disponibilidade de água, permitindo identificar riscos de escassez e apoiar a tomada de decisões com horizontes de planejamento de até 30 anos. A plataforma também emite alertas preventivos que auxiliam tanto as operações industriais quanto as comunidades localizadas nas áreas de influência das bacias estudadas.

Na prática, a iniciativa funciona de forma semelhante às tecnologias utilizadas no futebol moderno: em vez de apenas reagir aos acontecimentos, as ferramentas de análise permitem antecipar cenários e fornecer informações estratégicas para decisões mais seguras e eficientes. É uma demonstração de que a inteligência artificial já está em campo também na gestão da água.

Tecnologia contra as perdas de água

Um dos maiores desafios do saneamento brasileiro continua sendo a redução das perdas de água nos sistemas de distribuição.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNISA), milhões de metros cúbicos de água tratada deixam de chegar ao consumidor devido a vazamentos, falhas operacionais e ligações irregulares.

Sistemas de telemetria, sensores de pressão, equipamentos de detecção acústica e plataformas de análise de dados permitem localizar vazamentos com maior rapidez e precisão, reduzindo perdas e evitando desperdícios. É como se cada trecho da rede de abastecimento contasse com seu próprio VAR, monitorando continuamente o desempenho do sistema e sinalizando situações que exigem atenção.

O futuro da gestão da água já começou

A crescente disponibilidade de dados, associada ao avanço da inteligência artificial, da internet das coisas (IoT) e das ferramentas de monitoramento remoto, está transformando a forma como a água é gerida em todo o mundo.

Hoje, gestores conseguem acompanhar sistemas em tempo real, identificar riscos com antecedência e tomar decisões com maior precisão e rapidez. Além de otimizar a gestão de recursos hídricos, o uso de Inteligência Artificial (IA) também pode aumentar a eficiência dos processos industriais que dependem de água, como as indústrias química e de manufatura, ajustando em tempo real o consumo à demanda das operações, o que resulta em economia de recursos e redução de desperdício.

Logo, essas tecnologias poderão tornar os sistemas ainda mais inteligentes, conectados e resilientes diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pelo crescimento populacional e pelo aumento da demanda por água.

Assim como o futebol incorporou a tecnologia para tornar as decisões mais precisas dentro de campo, a gestão hídrica encontra na inovação uma importante aliada para enfrentar desafios cada vez mais complexos.

Fontes

FIFA. Football Technology and Innovation Programme.

FIFA. Video Assistant Referee (VAR).

Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNISA).

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – Digital Water Management.

International Water Association (IWA) – Digital Water Program.

* Aguinaldo Brito Junior é coordenador de projetos do Consórcio PCJ e Engenheiro civil, com pós-graduação em Infraestrutura do Saneamento Básico.

** Rafael Leite é coordenador de projetos do Consórcio PCJ e Engenheiro Civil, com especialização em Gerenciamento de Recursos Hídricos e em Gestão Pública.

Imagem Fonte: FIFA.com

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