Registros de desastres climáticos por chuvas no Brasil aumentaram 223% nas últimas décadas

Número de ocorrências subiu de 2.335 na década de 1990 para 7.539 no período de 2020 a 2023

O número de registros de desastres climáticos relacionados a chuvas no Brasil aumentaram 223% entre 1991 e 2023, uma taxa de aumento médio de 46 registros por ano. No total, 26.767 novos casos foram registrados no período, de acordo com o estudo “Brasil em Transformação”, elaborado pelo Programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

As ocorrências mais frequentes ocorrem por enxurradas, chuvas intensas e deslizamentos de solo, que ocasionam perdas materiais, ferimentos graves e mortes, e até mesmo a transmissão de doenças, como leptospirose, cólera e diarreia por águas contaminadas de enchentes.

Atualmente, 83% dos municípios brasileiros já foram afetados pelos desastres, proporção que era de 27% na década de 1990. Chuvas torrenciais, que superam a capacidade de drenagem das cidades, geralmente causam alagamentos e destruição em centros urbanos, o que traz prejuízos públicos e privados. Entre 1995 e 2023, mais de 34 milhões de unidades de bens e infraestrutura foram danificados ou destruídos, representando um prejuízo de R$146,7 bilhões, segundo o estudo da Unifesp.

O estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, foi atingido por um dos maiores desastres climáticos do Brasil entre o final de abril e maio de 2024. Diversos municípios registraram acumulados de chuva extremos, chegando a mais de 500 mm, ocasionadas pela chegada de uma massa de ar frio, que veio do sul do continente, e se encontrou com uma massa de ar quente que já circulava em boa parte do centro-norte do Brasil. Quando há esse encontro, a água passa do estado gasoso para o líquido, e é justamente aí que há a formação de nuvens e, consequentemente, das chuvas.

O estudo da Unifesp revela que 478 municípios da região gaúcha foram atingidos, o que afetou mais de 2,3 milhões de pessoas e gerou prejuízos de R$88,9 bilhões. Registrou-se 183 mortes, mais de 800 feridos e 580 mil desalojados.

A região das Bacias PCJ já convive com consequências de eventos climáticos extremos há alguns anos, segundo artigo da revista Ação Eco Cuencas, publicado pela Agência das Bacias, em 2017. A publicação atenta para ocorrências entre 2010 e 2011, quando houve uma série de enchentes na região e o Sistema Cantareira, importante manancial para as Bacias PCJ e Alto Tietê, chegou a extravasar, devido às precipitações acima da média no período, porém, também é destacado os anos de 2014 e 2015, quando ocorreu evento climático oposto, com uma forte seca que impactou a região e todo o Centro-Sul do Brasil, configurando-se na pior estiagem de que se tem registro da história, o que ocasionou queda acentuada das vazões dos rios, morte de nascentes e reduções drásticas dos volumes armazenados no Sistema Cantareira, sendo necessário a exploração do chamado “volume morto”, a água que fica reservada abaixo das cotas de captação dos reservatórios. 

Nas últimas décadas, foram executadas obras e investimentos para melhoria da infraestrutura hídrica nas Bacias PCJ e Alto Tietê, como a interligação de sistemas (Cantareira e Igaratá), construção do Sistema São Lourenço, construção de novos reservatórios municipais e regionais, redução das perdas hídricas nos sistemas de abastecimento, além de campanhas de educação e sensibilização da sociedade, fato que permitiu melhor contingenciamento para eventos hidrológicos extremos. Como essas ocorrências têm se intensificado ano após ano, mais medidas como essas são importantes e necessárias para a segurança hídrica.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A COP30

As mudanças climáticas são transformações a longo prazo nos padrões de temperatura e clima do planeta. Desde 1800, as atividades humanas têm sido o principal impulsionador das mudanças, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. 

Para evitar que essas mudanças ocorressem, foi firmado o Acordo de Paris durante a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15), que estipulou a mitigação do aumento das temperaturas médias globais em até 1,5ºC. No entanto, conforme divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a temperatura registrada em 2024 foi de 1,55ºC, acima da meta estipulada pelo Acordo de Paris, se configurando o ano mais quente da história.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o aumento das temperaturas está mudando os padrões climáticos, causando invernos mais quentes e ciclones mais frequentes, além de tempestades mais destrutivas.

Quase toda a população brasileira (97%) afirma que percebe os impactos das mudanças climáticas em seus cotidianos, de acordo com a pesquisa feita pelo Datafolha. Entre aqueles que vivenciaram episódios críticos, destaca-se o calor (65%), seguido por chuva intensa ou tempestade (33%). A pesquisa também analisou a opinião dos gaúchos sobre a crise climática. Para 75% dos entrevistados, a destruição provocada pelas enchentes poderia ter sido evitada.

A COP30 é a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, um encontro global anual onde líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil discutem ações para combater as mudanças do clima. O evento acontece em novembro de 2025 na cidade de Belém (PA), e representa uma oportunidade histórica para o Brasil reafirmar seu papel de liderança nas negociações sobre mudanças climáticas e sustentabilidade global.

A escolha da Amazônia como sede do evento não é casual. As florestas que cobrem grande parte do Norte do Brasil desempenham um papel crucial no equilíbrio climático global. É dela que partem os chamados “rios voadores”, as massas de ar que regulam o clima em boa parte da América do Sul. 

Após o desastre climático na região Sul do país e o aumento na frequência de ocorrências por todo o território, a COP30 ganha importância ainda maior. Em um país que, segundo o estudo da Unifesp, 64% da população sente medo da previsão de chuvas fortes e mais de 100 milhões de brasileiros já foram diretamente afetados pelas mudanças climáticas, a Conferência se torna um espaço vital para debater soluções globais, reforçando a necessidade de políticas efetivas de adaptação e mitigação.

O Consórcio PCJ está se preparando para participar da COP30, ao lado de seus parceiros internacionais, como o Conselho Mundial da Água (WWC – na sigla em inglês) e a Rede Internacional de Organismos de Bacias (RIOB). A entidade está planejando eventos online para o segundo semestre de 2025, pré-COP, para mobilizar a participação das Bacias PCJ no principal evento ambiental do ano, além de contribuir com os processos de debates sobre o tema água e saneamento. Em breve mais informações de participação serão divulgadas pela entidade.

Foto: Andrew Beatson/Pexels

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