Como a água e a equidade de gênero estão conectadas?

*Por Bianca Caroline, Débora Papani, Letícia Girardi, Lilian Bozzi, Mariane Leme e Silmara Nonato

Nenhum país no mundo atingiu a equidade de gênero entre homens e mulheres. É o que revela o relatório “Garantindo e Fortalecendo o Acesso à Justiça para Todas as Mulheres e Meninas”, divulgado no dia 4 de março pela ONU Mulheres, agência das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e ao empoderamento feminino.

De acordo com o estudo, mulheres detêm apenas 64% dos direitos legais em relação a homens ao redor do mundo, o que aumenta a desigualdade social e econômica, além de provocar impactos na saúde e qualidade de vida.

As mulheres possuem menos acesso aos cenários de tomada de decisão e são mais impactadas com a falta de acesso aos recursos básicos, como água potável e saneamento de qualidade, o que acentua a desigualdade na sustentabilidade hídrica.

O tema do “Dia Mundial da Água 2026 – Água e Gênero” foi escolhido pela ONU Água para sensibilizar sobre a conexão entre água e equidade de gênero. O objetivo é demonstrar o papel das mulheres na gestão da água e a necessidade de colocá-las no centro da busca por soluções.

IMPACTOS DA DESIGUALDADE DE GÊNERO NO ACESSO À ÁGUA

No mundo todo, mais de 1 bilhão de mulheres vivem sem acesso à água potável segura, de acordo com a publicação “Progresso nos Objetivos de Desenvolvimento: Panorama de gênero”, de 2023. O número representa cerca de 27,1% da população feminina mundial.

Já no Brasil, o relatório “O Saneamento e a vida da mulher brasileira”, publicado em 2022 pelo Instituto Trata Brasil, revela que 16 milhões de mulheres não possuem acesso à água tratada. No quesito falta de coleta de esgoto, o número é mais que o dobro: 41,4 milhões.

A falta de água de qualidade e o saneamento precário possuem reflexos diretos em todos os aspectos da vida das mulheres. Segundo o estudo, 18,3 milhões delas poderiam sair da condição de pobreza se tivessem acesso à água e esgoto tratados.

Quando se trata de saúde, o estudo mostra que o acesso pleno ao saneamento  não é apenas uma questão de higiene, mas de saúde pública direcionada. Ele pode reduzir em 63,4% as ocorrências de doenças ginecológicas, frequentemente causadas por veiculação hídrica, responsável por 73 mil internações em 2025 de acordo com o Ministério da Saúde.

Essas doenças decorrentes da falta de saneamento impactam também a educação das mulheres. O estudo aponta que as mulheres brasileiras tiveram cerca de 676 milhões de horas de estudo comprometidas em razão de afastamentos provocados pelas enfermidades. A oferta do saneamento básico pode reduzir em até 25,6% o atraso escolar.

COMO PROMOVER A EQUIDADE?

De acordo com a ONU Mulheres, uma abordagem transformadora, baseada em direitos para solucionar esses desafios, reconhecer a capacidade de ação das mulheres e escutá-las é fundamental para promover a equidade. Todas elas devem ser igualmente representadas em todos os níveis do gerenciamento de recursos hídricos.

A ONU reforça que todos podem tomar ações para atingir a segurança hídrica igualitária. Na Ficha Informativa do Dia Mundial da Água 2026, a entidade disponibiliza conteúdos, links e aponta formas para que cada um possa contribuir, tanto com ações concretas como também compartilhar para mais pessoas.

Para acelerar o progresso do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, cuja meta é assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos, é necessário acelerar o ODS 5 em conjunto, cuja finalidade é alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres.

Os Objetivos fazem parte da Agenda 2030 da ONU, plano de ação global adotado em 2015 que possui 17 ODS e 169 metas para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade até 2030. A igualdade de gênero e o acesso à água são direitos fundamentais para atingir as metas dessa agenda, a apenas quatro anos para o seu atendimento.

A aproximação das mulheres no gerenciamento dos recursos hídricos contribui efetivamente para a gestão correta e conservação da água, que segundo a ONU, aumentou de 54% para apenas 58% entre 2020 e 2023, progresso baixo para um intervalo de três anos.

Fomentar o compromisso de integrar a equidade de gênero nas lideranças e incluí-las nas leis, políticas e estratégias sobre a água é fundamental, de acordo com a Nota sobre Integração da igualdade de gênero no gerenciamento dos recursos hídricos da ONU Mulheres.

O documento ainda ressalta que investir em educação e na atuação entre diversos setores é essencial para monitorar e chegar mais perto de atingir as metas desejadas. No Brasil, apesar de existirem 221 mil mestrandas e doutorandas, 54% do total, elas representam somente cerca de 43% do corpo docente da pós-graduação, segundo dados do CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

O LADO FEMININO NA GESTÃO DA ÁGUA

Ainda que as mulheres somem 51,5% da população brasileira, segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 30% delas em média participam de Comitês de Bacias Hidrográficas e Conselhos de Recursos hídricos. É necessário ampliar essa participação para dar mais representatividade a elas, uma vez que a gestão da água dentro das residências é feita em grande parte pelas mulheres.

Na gestão de recursos hídricos existem grandes profissionais que historicamente contribuíram e contribuem para a sustentabilidade hídrica, com atuações marcantes em momentos de grande importância para a consolidação do sistema de gerenciamento. Nós, mulheres, temos intensificado nos últimos anos a ampliação da nossa presença na governança da água, por meio de vários movimentos e participação em redes.

Um exemplo disso, é a REBOB – Mulher, iniciativa da Rede Brasil de Organismos de Bacias, a qual busca dar destaque a experiências que mostrem o valor da participação das mulheres nos processos de gestão da água no Brasil e no mundo, com artigos, matérias ou indicação de mulheres especialistas e envolvidas com os mais diversos temas de gestão de recursos hídricos e saneamento.

Essas ações demonstram como nós, mulheres, seja nas comunidades, na academia e nas pesquisas científicas, na gestão participativa, nas atividades de educação ambiental ou na gestão da água dentro de nossas casas, temos um papel importante a desenvolver no gerenciamento de recursos hídricos para um futuro sustentável.

O PAPEL DAS MULHERES NO CONSÓRCIO PCJ

O Consórcio PCJ atua há 36 anos em defesa das águas das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) através de 10 programas de atuação, e as mulheres possuem papel fundamental neles. A entidade é dividida em quatro departamentos (Administrativo e Financeiro; Jurídico; Comunicação; e Técnico) e atualmente seis mulheres ocupam cargos entre eles.

As mulheres contribuem diretamente em cinco programas de atuação, seja como coordenadoras ou apoio. No Programa de Educação e Sensibilização Ambiental, por exemplo, o Projeto Gota d’Água, cujo objetivo é promover ações de educação ambiental voltadas à gestão da água, envolvendo escolas e a comunidade, capacita anualmente 150 mil pessoas nas Bacias PCJ.

Com formações diversas, as mulheres que trabalham hoje ou que já tenham trabalhado no Consórcio PCJ, contribuíram para uma gestão sustentável da água nas nossas bacias hidrográficas. Somos administradoras, advogadas, tecnólogas, gestoras, engenheiras, técnicas, entre tantas áreas profissionais que juntas atuamos por água de qualidade e quantidade para nós, nossos filhos, nossas famílias e a sociedade como um todo.

Para conquistar a equidade de gênero, os governos e organizações devem seguir as recomendações da ONU sobre o Dia Mundial da Água e investir em políticas específicas que valorizem a atuação delas e promovam educação e saúde de qualidade para todas.

Somente dessa maneira será possível realizar progresso nos ODS 5 e 6 e fazer com que a água seja uma das forças responsáveis pelo desenvolvimento sustentável e justo para todos.

*Bianca Caroline Alves Leite – Assistente de Projetos do Consórcio PCJ

*Débora de Paula Papani – Assistente de Projetos do Consórcio PCJ

*Leticia Girardi Kumagai – Agente Administrativo do Consórcio PCJ

*Lilian Bozzi – Assessora Jurídica do Consórcio PCJ

*Mariane Alves de Godoy Leme – Coordenadora de Projetos do Consórcio PCJ

*Silmara Nonato – Coordenadora Financeira do Consórcio PCJ

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