Construção de cisternas, piscinões ecológicos e bacias de retenção devem ser priorizadas para mitigar impactos de tempestades e estiagens severas
O início de setembro vem apresentando precipitações bem acima da média histórica para o período, com cidades apresentando volumes de chuvas acima de 100 mm. Tanta água assim num curto espaço de tempo traz transtornos aos municípios, que estão enfrentando pontos de alagamentos, impactando a população. Porém, o excesso de chuva se não for armazenado, pode fazer falta no futuro. O Consórcio PCJ, em seus boletins hidrológicos sempre destaca a necessidade e a importância do armazenamento de água para o enfrentamento de períodos secos.
Somente nos 15 primeiros dias de setembro, as precipitações de chuva nas Bacias PCJ já somam quase 215 mm ante os 51,5 mm que são o habitual de ocorrer pela média histórica. As vazões em praticamente todos os pontos de medição dos rios das Bacias PCJ apresentam índices acima do normal para o período. Ou seja, tem muita água passando pelos rios, mas não está sendo reservada.
A construção de cisternas, piscinões ecológicos em áreas urbanas e bacias de retenção na zona rural, além de funcionarem como uma forma de conter os picos de vazões dos cursos d’água, evitando o extravasamento com pontos de alagamentos nas cidades, possuem uma segunda e importante função: guardar a água que pode fazer falta amanhã.
Os piscinões ecológicos e bacias de retenção auxiliam na recarga do lençol freático, enquanto as cisternas reservam água para usos futuros. “A construção dessas alternativas configura-se numa eficiente estratégia de gestão dos recursos hídricos diante da ocorrência de eventos climáticos extremos, pois atuam em duas frentes distintas: conter cheias e reservar o excesso de água para aproveitamento durante os períodos secos, possibilitando maior resiliência hídrica às cidades”, assinala o secretário executivo do Consórcio PCJ, Francisco Lahóz.
Exemplos de ações nas Bacias PCJ
Na nossa região existem bons exemplos nesse sentido. A cidade de Rio Claro, por exemplo, possui legislação que fomenta a construção de cisternas em novas construções no município, com a lei 3937 de 2009, uma das pioneiras na nossa bacia hidrográfica. Outro município que possui legislação similar é Vinhedo, com a implantação do Programa de Captação de Recursos de Águas Pluviais por meio do sistema de cisternas, com a promulgação da lei ordinária nº 4316 de 2024. Em ambos os casos, a água das cisternas é utilizada para usos não potáveis, como rega de jardins, usos em vasos sanitários, lavagens de veículos e outras situações que não seja necessário o uso de água potável. Essas medidas desafogam o sistema de abastecimento das cidades além de conter enchentes ao aliviar os sistemas de drenagem durante as fortes chuvas e fomentar o uso e conservação da água de forma sustentável.
As cidades de Limeira, Piracicaba e Bragança Paulista possuem experiências exitosas com a implantação de bacias de retenção e piscinões ecológicos. Essas construções se configuram como uma alternativa barata e eficaz para ampliar a segurança hídrica.
Para se ter ideia do potencial das bacias de retenção, numa região com média de precipitação de 1.000 milímetros/ano, e com 500 km de estradas vicinais, com largura aproximada de 10 metros, portanto, uma área de 5.000.000 de m², é possível armazenar cinco bilhões de litros de água por ano, segundo o Manual Técnico de Manejo e Conservação do Solo, volume 5, elaborado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo e da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI). Nas Bacias PCJ, a média de precipitação é de 1.400 milímetros em épocas normais.
Reservatórios de água bruta: mais segurança hídrica
A construção de reservatórios municipais de água bruta, ainda que necessitem de investimentos maiores, também são importantes para a mitigação de impactos de eventos hidrológicos extremos. Ao final de 2025, Santa Bárbara d’Oeste inaugurou a Represa Parque das Águas, no Ribeirão dos Toledos, ampliando em 25% a reserva hídrica local, além de contribuir para o amortecimento dos picos de vazão durante períodos de chuvas intensas, já que o ribeirão corta a área urbana da cidade e historicamente está associado à ocorrência de alagamentos em regiões centrais.
Essa experiência foi apresentada pelo Presidente do Consórcio PCJ e prefeito de Santa Bárbara d’Oeste, Rafael Piovezan, na Cúpula Mundial das Bacias Hidrográficas, realizada pela Rede Internacional de Organismos de Bacias (RIOB), em junho desse ano, no Rio de Janeiro (RJ). Na ocasião, Piovezan destacou que “cada vez mais é urgente o planejamento e a adaptação aos impactos que os eventos hidrológicos extremos causam às cidades, à produção agrícola e industrial e, sobretudo, à segurança das pessoas”.
Diante desse cenário climático, o Consórcio PCJ recomenda que os municípios e empresas associados avaliem, de maneira integrada, medidas estruturais e não estruturais de drenagem, planejamento urbano, retenção e aproveitamento de águas pluviais, elaboração de estudos e projetos para recarga de aquíferos e recuperação dos cursos d’água. Tais ações contribuem para reduzir os picos de escoamento, aliviar a sobrecarga dos sistemas públicos de drenagem e ampliar a resiliência urbana, além de favorecer o uso racional da água e a segurança hídrica regional.
O Consórcio PCJ aponta em seus documentos e estudos que os municípios busquem todas as alternativas possíveis para a reservação de água bruta, uma vez que as mudanças climáticas estão intensificando a ocorrência de eventos extremos, seja com a ocorrência de fortes chuvas e tempestades, seja com secas cada vez mais severas. A resiliência hídrica deve ser construída levando-se em conta as instabilidades climatológicas cada vez mais frequentes. Longos períodos de escassez são desafiadores para a gestão de recursos hídricos da mesma forma que o excesso de chuvas sem planejamento e armazenamento da água também são danosos para a segurança hídrica.
Mais informações acesse: www.agua.org.br.
Imagem: Nguyễn Hữu Nhã via Pexels