*Por Rafael Antonio Alves Leite
De acordo com uma pesquisa liderada pela instituição Eurac Research e publicada na revista científica “International Journal of Climatology” em agosto de 2024, a neve acumulada nos Alpes, cadeia montanhosa que se estende por toda a Europa, diminuiu 34% nos últimos cem anos.
A mudança é bem evidente no Norte da Itália, país que recebe os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026. A competição está necessitando da produção de 2 milhões e meio de metros cúbicos de neve artificial para ser realizada, o que possui o custo ambiental de 946 milhões de litros de água, o equivalente a 380 piscinas olímpicas de natação.
As informações foram apresentadas no programa “Fantástico” da TV Globo que foi ao ar no dia primeiro de fevereiro e atentou para as dificuldades de desgaste enfrentadas pelos atletas e de logística pelos governos com relação às mudanças climáticas.
O caso das Olimpíadas de Inverno demonstra como as alterações do clima impactam diversos setores da sociedade com aspectos econômicos, sociais, de logística, no esporte e, também, na gestão da água.
ESPORTES DE GELO SÃO OS MAIS IMPACTADOS
Das 93 montanhas que já receberam provas olímpicas desde a primeira edição dos Jogos de Inverno, realizada em 1924 nos alpes franceses, apenas 52 podem ter neve suficiente para receber a competição em 2050, de acordo com o estudo “Climate change and the climate reliability of hosts in the second century of the Winter Olympic Games”, publicado em 2024 na revista científica “Current Issues in Tourism”.
O estudo foi encomendado pelo Comitê Olímpico Internacional (IOC) e demonstra que a cada ano, há menos locais frios o suficiente para comportar esse tipo de evento.
As modalidades disputadas em ambientes controlados também não escapam dos efeitos das mudanças climáticas. Um exemplo é o caso do Bobsled, prova em que quatro atletas descem uma pista de gelo num trenó acima de 150 quilômetros por hora. Anteriormente, essas pistas possuíam áreas abertas de contato com o ambiente, mas hoje, precisam ser cobertas para correr menos riscos de o calor derreter o gelo e estragar a disputa.
O aspecto logístico do evento também enfrenta dificuldades com eventos climáticos extremos. As obras para os jogos receberam críticas de organizações ambientais, como a Legambiente, da Itália, que afirmou que a competição deveria ser reprovada tanto pelo aspecto da sustentabilidade ambiental-econômica quanto pela pouca atenção à crise climática nos Alpes.
ESPORTES DE VERÃO TAMBÉM SENTEM AS MUDANÇAS
Do outro lado da moeda, esportes de verão também sofrem com as alterações climáticas. O aquecimento global gera calor extremo e tempestades que podem afetar a qualidade da competição e a saúde dos atletas e espectadores.
Os impactos afetam os calendários das competições. Em 2016, por causa do calor extremo, os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro foram realizados durante o mês de agosto, quando se espera temperaturas mais amenas.
E de acordo com análise feita pela CNN Brasil sobre dados do CarbonPlan, grupo sem fins lucrativos focado em ciência climática, o estresse por calor – combinação de calor, umidade, velocidade do vento, ângulo do sol e cobertura de nuvens – em quase todas as cidades na parte leste dos Estados Unidos ultrapassaria o limite de graus recomendados por especialistas até 2050.
Caso o limite seja ultrapassado, realizar os jogos nessas cidades seria praticamente inviável, por representar um grande risco à saúde dos atletas. O país já foi palco dos Jogos Olímpicos quatro vezes (1904, 1932, 1984 e 1996) e está confirmado para recebê-los novamente em 2028 na cidade de Los Angeles.
Temperaturas mais quentes se tornam um empecilho a mais para os atletas. O estudo “Thermoregulatory responses during road races in hot-humid conditions at the 2019 Athletics World Championships”, realizado com mais de 100 atletas competindo em corridas de longa distância no campeonato mundial de atletismo de 2019, sediado no Catar, país de temperaturas altas, identificou que praticamente todos tiveram um desempenho de 3% a 20% pior do que seu melhor desempenho pessoal.
Competir em clima quente pode prejudicar a tomada de decisões e as habilidades motoras, o que torna os atletas mais desajeitados e irritados. As consequências físicas podem variar de cãibras e tonturas a morte súbita.
PANORAMA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Fora do esporte, as mudanças climáticas têm impactado todo tipo de atividade. O último Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2023, detalha as consequências do aumento das emissões de gases do efeito estufa (GEE) em todo o mundo.
De acordo com o relatório, já com 1,1ºC de aumento na temperatura terrestre, mudanças no sistema climático ocorrem hoje em todas as regiões do mundo, desde o aumento do nível do mar a eventos extremos e o gelo marinho diminuindo cada vez mais.
As temperaturas mais altas podem levar a cenários irreversíveis. Se o aquecimento atingir a faixa de 2ºC a 3ºC, por exemplo, as camadas de gelo da Antártida Oriental e da Groenlândia podem entrar em processos de perda de massa irreversíveis ao longo de séculos ou milênios, contribuindo para elevação de vários metros do nível do mar.
E mesmo o limite de 1,5ºC estabelecido pelo Acordo de Paris não é um cenário seguro. Com esse nível de aquecimento, 950 milhões de pessoas em todo o mundo enfrentarão estresse hídrico, estresse térmico e desertificação, e a parcela da população mundial exposta a inundações subirá para 24%.
No Brasil, eventos climáticos extremos também já podem ser observados. As enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul, por exemplo, afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, causando 183 mortes e prejuízos econômicos na casa dos bilhões de reais, sendo considerado o maior desastre natural da história do Estado e um dos maiores do país, de acordo com o levantamento “As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente”, produzido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Todas essas alterações climáticas causadas pelo aumento das temperaturas vêm sendo observadas e registradas desde meados do século XX e, mais recentemente, são analisadas de forma sistemática pelo Observatório Copernicus, Programa de Observação da Terra da União Europeia. Os dados são coletados por meio de uma grande rede de aparelhos, espalhados pela terra, pelo céu e até no espaço. No mar, alguns instrumentos são acoplados em navios e até boias capazes de medir em vários pontos do oceano.
Quando os dados são divulgados, as mudanças ficam evidentes. O relatório “Global Climate Highlights 2025”, divulgado pelo observatório em janeiro de 2026, mostra que 2025 foi o terceiro ano mais quente da história, com uma temperatura média global de 14,97ºC, valor 1,47ºC acima do nível pré-industrial (1850-1900).
COMO LIDAR COM UM CLIMA CADA VEZ MAIS INSTÁVEL?
Nos Jogos, a sustentabilidade tem sido um dos focos da Carta Olímpica desde 1996. Em 2012, foi lançada a norma internacional ISO 20121, adotada nos Jogos Olímpicos de Londres. A norma fornece diretrizes para identificar os impactos sociais, econômicos e ambientais de um evento de grande porte e auxiliar na redução ou eliminação por meio de planejamento e processos aprimorados.
Durante a competição, os esforços pelo clima podem ser percebidos pelos espectadores, como assentos feitos de plástico reciclado e a utilização de energia de baixo carbono, incluindo fontes renováveis nos Jogos de Paris 2024. Ações como essas são fundamentais, pois possuem o poder de conscientizar a população e promover educação ambiental.
A preocupação com a água já é uma constante da organização dos grandes eventos esportivos mundiais. A própria ISO20121 possui recomendações sobre a adoção de infraestruturas eficientes no consumo de água, gestão apropriada dos efluentes, incentivo ao uso de sistemas de captação de água da chuva e reaproveitamento de água. Como pode ser notado, a gestão apropriada dos recursos hídricos também é um item central na realização de eventos ligados ao esporte, o que mostra como a água é um tema que impacta diversas áreas de nossa vida.
Tanto no esporte como em outras áreas, há um senso em comum: as mudanças climáticas estão afetando a maneira como todos vivem. Estimular o setor público, privado e a população a trabalharem juntos em prol da água é cada vez mais fundamental.
A criação de campanhas e leis que promovam o uso sustentável dos recursos naturais deve ser realizada frequentemente pelos governos e municípios para conscientizar seus cidadãos e permitir que eventos sejam realizados de forma sustentável.
O Consórcio PCJ atua, desde 1989, em parceria com governos, empresas e a sociedade civil, implementando projetos e medidas para proteger e garantir a disponibilidade de água nas Bacias PCJ. A entidade auxilia seus associados e disponibiliza informações sobre a gestão dos recursos hídricos e meio ambiente à população. Somente com a atuação em conjunto será possível enfrentar as mudanças climáticas e tornar países, cidades e cada área de atuação mais resiliente.
*Rafael Antonio Alves Leite
Coordenador de Projetos do Consórcio PCJ – Engenheiro Ambiental, especialista em Gerenciamento de Recursos Hídricos
Imagem: BLazarus/Pixabay