É reciclável ou não? Entenda a diferença entre reciclável e reciclabilidade

Por Aguinaldo Brito Júnior*

Segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), apenas 1,82% dos resíduos recicláveis secos e orgânicos foram efetivamente recuperados no Brasil até julho de 2024, data do último levantamento publicado.

Dos resíduos com potencial de reaproveitamento, apenas 1,17 milhão de toneladas por ano de materiais secos (como plástico, vidro, papel e metal) foram de fato recicladas. Entre os resíduos orgânicos, que podem ser transformados por meio de compostagem ou outros processos biológicos, a recuperação anual foi de 160 mil toneladas.

Isso se explica principalmente pela diferença entre o item ser reciclável e ter reciclabilidade e da necessidade de entender quais produtos podem ser reciclados ou não, como cartelas de remédios e talheres descartáveis, que são feitos de plástico, material reciclável, mas não significa que consigam ser reciclados de fato. 

Compreender as diferenças entre os termos e produtos é fundamental para realizar ações que contribuam com as taxas de reciclagem e a sustentabilidade no país.

RECICLAGEM X RECICLABILIDADE

A reciclagem é o processo de reaproveitar determinados produtos ou partes de objetos que seriam descartados a fim de transformá-los em novos produtos. Por exemplo, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET), uma garrafa PET pode ser reciclada diversas vezes e ser usada para outras aplicações como cerdas para vassoura ou peças automotivas.

O processo auxilia na diminuição da quantidade de resíduos sólidos que são descartados de forma irregular no meio ambiente ou acabam em aterros sanitários, o que torna as cidades mais limpas e sustentáveis.

Já a reciclabilidade é o termo usado para definir o potencial que os materiais têm de passar pelo processo. Enquanto alguns itens passam por caminhos simples, outros exigem altos custos ou dificuldade de armazenamento, ou seja, possuem um potencial de reciclagem comprometido.

Para entender melhor esses dois conceitos complexos, conversei com Christiani Vilas Boas Vieira, Gerente Comercial Regional da Orizon Valorização de Resíduos S.A – Ecoparque Paulínia, uma das empresas associadas ao Consórcio PCJ.

Segundo ela, alguns materiais são confundidos como recicláveis, mas não possuem reciclabilidade viável nas condições atuais de mercado e tecnologia, como embalagens multicamadas, papéis engordurados ou contaminados por resíduos orgânicos e plásticos muito leves ou de baixa escala de reciclagem.

Os principais fatores que dificultam a reciclabilidade são:

  • Valor: Pode ocorrer de ser mais vantajosa a produção com matérias primas virgens do que com material reciclado, ou então, de o material reciclado possuir valor de mercado muito baixo;
  • Logística: há materiais leves, quebradiços, perigosos ou volumosos que acabam dificultando a coleta, armazenamento e transporte;
  • Destinação: muitos materiais são destinados para locais inadequados ou separados da forma errada (resíduos secos junto de molhados);
  • Tecnologia: há materiais que ainda necessitam desenvolvimento tecnológico para a viabilização da reciclagem.

Ou seja, para que um produto seja considerado reciclável e consiga passar pelo processo de se tornar algo novo, as condições que o envolvem precisam ser favoráveis. Caso contrário, a reciclagem será inviável e a recirculação do material será impossibilitada.

O QUE PODE SER RECICLADO?

Identificar corretamente o que é considerado reciclável é fundamental para se realizar a separação adequada dos resíduos e compreender quais possuem reciclabilidade. Papel, plástico, metal, vidro e eletrônico são os cinco tipos principais de resíduos que podem passar pelo processo de reciclagem, mas cada um possui diversas variações, o que torna alguns recicláveis e outros não.

Eletrônico

Os eletrônicos são uma exceção. Praticamente todo aparelho desse tipo, como celular, notebook e televisão, pode ser reciclado, devido aos materiais valiosos e reutilizáveis que os compõem (metal, plástico, vidro). Os únicos casos em que não se é possível reciclar um eletrônico, é quando o aparelho está com vazamento de substância químicas como óleo ou mercúrio, e nesse caso deve ser considerado resíduo perigoso.

Além desse caso, há outros tipos de materiais que não possuem forma de reciclagem, como os resíduos orgânicos (restos de comida, cascas de frutas e ovos), contaminantes (pilhas e baterias), hospitalares (algodão, seringas, agulhas etc.) e os rejeitos (lenços, papel higiênico, guardanapos de papel sujos etc.). Os resíduos orgânicos ainda possuem a alternativa de serem utilizados para a confecção de composteiras, que transformarão o que seria o descarte orgânico em adubo para ser aplicado em plantas, vegetais e hortaliças.

Um exemplo comum e que causa dúvidas é a caixa de pizza. Apesar de ser feita de papelão, a caixa de pizza é manchada com os condimentos do alimento, como óleo e queijo, que se impregnam no papelão e tornam a reciclagem inviável. A única maneira de não a desperdiçar completamente, é separar as partes da caixa que não foram manchadas pela gordura.

QUAIS POSSUEM MAIS DIFICULDADE COM A RECICLABILIDADE?

Um exemplo de produto reciclável, mas que possui baixa reciclabilidade são as garrafas PET coloridas, que enfrentam pouco interesse do mercado. Isso acontece porque, ao ser reciclado, o PET colorido torna-se preto, um material pouco valorizado que costuma ser transformado em baldes, item com aplicação industrial ou doméstica de longo prazo e, por isso, com demanda menor às garrafas.

Isso possui impacto nas taxas de reciclagem do material no Brasil, já que de acordo com a 13ª e última edição do Censo da Reciclagem do PET no Brasil, lançada em 2024 pela ABIPET, o país reciclou 410 mil toneladas de embalagens PET no ano. Isso representa apenas 53% das descartadas pelos consumidores.

Já as embalagens em sachê, como de salgadinho, biscoito e café são um exemplo de material que não possui nenhuma reciclabilidade. Isso ocorre porque são feitas de um tipo de plástico chamado BOPP, que tem uma impressão colorida por fora e camada metalizada por dentro e, dessa maneira, sua separação e reaproveitamento são complexos.

Além disso, existem os plásticos de uso único, outro material que não possui nenhuma reciclabilidade, como copos, canudos e talheres descartáveis. De acordo com a Associação Nacional dos Catadores (ANCAT), máquinas identificam e separam toneladas de plásticos que passam pelas cooperativas. Esse tipo de plástico é tão pequeno e fino que acaba não sendo detectado e se perde na separação.

O QUE É POSSÍVEL FAZER?

Os consumidores devem adotar a coleta seletiva, processo de separação e recolhimento de resíduos de acordo com seu tipo, as famosas lixeiras coloridas, visto que mais de 70% dos brasileiros não separam os resíduos comuns dos recicláveis, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mas além disso, ações pequenas do dia a dia, como evitar garrafas PET coloridas, substituir sacolas plásticas por retornáveis e optar por embalagens refis fazem diferença e são recomendadas.

Do lado da indústria, empresas são responsáveis por todo o ciclo de vida e destinação final dos produtos fornecidos, conforme aponta o Plano Nacional de Economia Circular 2025 – 2034. Em um de seus eixos, por exemplo, o Plano busca promover a gestão eficiente de recursos e a preservação do valor de materiais ao longo de seus ciclos de vida, com a diminuição de resíduos desde a concepção dos produtos e investimentos em tecnologias de para o desenvolvimento da Economia Circular, que prioriza a reutilização de materiais existentes.

Dessa maneira, a educação ambiental contínua e integração entre o setor privado, público e a sociedade é fundamental para aumentar as taxas de reciclagem no país.

O Consórcio PCJ, através do seu Programa de Educação e Sensibilização Ambiental, através do Projeto Gota d’Água, atua anualmente na temática da gestão correta de resíduos com a capacitação de educadores e alunos sobre a importância do processo para a conservação da água e a preservação do meio ambiente.

As capacitações são fundamentais para incentivar a reciclagem e aumentar a conscientização da população sobre a influência de pequenas ações cotidianas na sociedade como um todo.

Além disso, o Programa de Saneamento e Resíduos Sólidos da entidade busca fomentar a conscientização e o planejamento de políticas públicas municipais e regionais, visando o estabelecimento de um sistema integrado e participativo de saneamento ambiental nas Bacias PCJ.

As ações realizadas são necessárias para aumentar a taxa de reciclagem no Brasil, que de acordo com o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, instituído em 2022 no Brasil, a meta é conseguir 50% em 20 anos. A correta separação dos resíduos, aliada à conscientização de boas escolhas no momento da compra de produtos se torna cada vez mais essencial para que a meta seja atingida.

Ao compreender a diferença entre resíduos recicláveis e não recicláveis, e quais possuem reciclabilidade, cada indivíduo pode contribuir de forma mais acertada na gestão de resíduos da sua casa, cidade e da nação como um todo, na busca por uma sociedade mais sustentável e com respeito ao meio ambiente. e da nação como um todo, na busca por uma sociedade mais sustentável e com respeito ao meio ambiente.

*Aguinaldo Brito Júnior
Coordenador de projetos do Consórcio PCJ – Engenheiro civil, com pós-graduação em Infraestrutura do Saneamento Básico.

Imagem: Gerada por IA

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