Por Aguinaldo Brito Júnior*
O mercado de água de reúso no Brasil vem ganhando relevância diante dos desafios impostos pela escassez hídrica, pelas mudanças climáticas e pela necessidade de uso mais eficiente dos recursos naturais. Embora o país detenha uma das maiores disponibilidades hídricas do mundo, cerca de 12% da água doce global (https://www.gov.br/pt-br/campanhas/brasil-na-cop/materias/box-voce-sabia?set_language=pt-br), os períodos recorrentes de estiagem tornam urgente a adoção de soluções que ampliem a segurança hídrica, especialmente em regiões altamente urbanizadas e industrializadas, como as Bacias PCJ.
Atualmente, o reúso de água ainda representa uma parcela muito pequena do total consumido no Brasil, apesar de seu elevado potencial. Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) “O Impacto Econômico dos Investimentos de Reúso de Efluentes Tratados para o Setor Industrial”, de 2018, menos de 1% da oferta de água no país provém de reúso de efluentes tratados. Esse cenário evidencia uma grande oportunidade para expansão, inovação e ganhos ambientais.
Indústrias de grande consumo hídrico têm buscado alternativas para reduzir custos operacionais e minimizar riscos relacionados à disponibilidade de água, adotando o reúso em processos produtivos, sistemas de resfriamento e limpeza industrial, como é o caso de uma de nossas associadas, Ambev, que opera hoje estações de reuso e reaproveita cerca de 500 mil metros cúbicos de efluente tratado por mês, usado por comunidades nas regiões onde atua.
O avanço das tecnologias de tratamento de efluentes tem contribuído para tornar o reúso cada vez mais seguro e viável. A empresa associada à entidade, Sanasa Campinas, por exemplo, foi a primeira empresa do país a ter uma Estação de Produção de Água de Reúso (EPAR) pelo método de membranas filtrantes. Os efluentes são tratados por meio de avançada tecnologia, que garante eficiência acima de 99% em remoção de impurezas. Após esse processo, a água pode ser reutilizada na limpeza urbana, na irrigação, em processos industriais, dentre outros.
Além disso, novos modelos de negócio vêm se consolidando, como o fornecimento de água de reúso por meio de parcerias público-privadas, concessões e contratos de desempenho, nos quais empresas especializadas assumem a implantação e a operação dos sistemas, reduzindo a necessidade de investimento inicial por parte dos municípios e usuários finais.
Apesar do potencial, o setor ainda enfrenta desafios importantes: um dos principais entraves é a fragmentação regulatória em que as normas sobre reúso de água variam entre estados e municípios, o que gera insegurança jurídica e dificulta a ampliação de projetos em escala regional ou nacional.
Outro desafio relevante é a percepção pública, uma vez que a aceitação da água de reúso depende de informação clara, transparência nos processos e confiança na qualidade do tratamento.
O fortalecimento do mercado de água de reúso no Brasil depende da combinação de políticas públicas consistentes, incentivos econômicos, padronização regulatória e engajamento da sociedade. À medida que esses elementos avancem, o reúso tende a se consolidar como uma ferramenta essencial para garantir segurança hídrica, apoiar o desenvolvimento sustentável e preparar as cidades e regiões para os desafios climáticos futuros.
*Aguinaldo Brito Júnior
Coordenador de projetos do Consórcio PCJ – Engenheiro civil, com pós-graduação em Infraestrutura do Saneamento Básico.
Imagem: Gerada por IA