Por Aguinaldo Brito Júnior*
Com o avanço das missões espaciais e a retomada das viagens tripuladas à Lua no âmbito do programa Artemis, liderado pela NASA, um tema ganha cada vez mais relevância: como garantir recursos básicos, como a água, em ambientes extremamente limitados. Nesse tipo de missão, a eficiência no uso de recursos não é apenas uma preocupação, mas uma condição essencial para viabilizar a permanência humana fora do planeta.
Para isso, foram desenvolvidos alguns dos sistemas de reutilização de água mais avançados do mundo, atualmente operando na Estação Espacial Internacional. O que parece um cenário extremo revela, na verdade, lições valiosas para a gestão hídrica aqui na Terra.
Os sistemas da Estação Espacial Internacional conseguem recuperar cerca de 98% de toda a água utilizada pelos astronautas, um avanço significativo em relação aos cerca de 94% registrados em anos anteriores. Esse reaproveitamento inclui urina, suor, vapor da respiração e até a umidade presente no ambiente. Na prática, isso significa que a água consumida em um determinado dia pode ter sido reutilizada diversas vezes ao longo da missão, aproximando-se de um ciclo quase fechado.
O tratamento de água no espaço é altamente tecnológico e envolve múltiplas etapas, desde a coleta de águas residuais até sistemas avançados de filtragem, separação de impurezas e tratamentos físico-químicos que garantem a potabilidade da água. Esse conjunto de tecnologias faz parte do sistema conhecido como ECLSS (Sistema de Controle Ambiental e Suporte à Vida), responsável por manter condições adequadas de sobrevivência no espaço. O resultado é uma água que atende padrões rigorosos de qualidade, fundamentais para a saúde dos astronautas em missões de longa duração.
Esse exemplo demonstra a segurança da água de reuso, que muitas vezes é vista com certa desconfiança pela população, mesmo que exames de qualidade atestem sobre a eficácia desse tipo de tratamento. Hoje em dia, a legislação brasileira permite a aplicação de água de reuso apenas para rega de jardins e uso nas descargas de vasos sanitários.
Cada astronauta consome, em média, cerca de 4 litros de água por dia no espaço para atender as necessidades básicas como hidratação, preparo de alimentos e higiene. Sem a reutilização, seria necessário transportar grandes volumes de água da Terra, o que aumentaria significativamente os custos e limitaria o tempo de permanência no espaço. Por isso, sistemas de reuso são considerados indispensáveis para missões de longa duração, como as futuras permanências na Lua e as viagens tripuladas a Marte. Nesse contexto, a eficiência hídrica deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição para a sobrevivência.
O contraste com a realidade terrestre é explícito: enquanto no espaço a reutilização da água atinge níveis próximos de 100%, na Terra ainda enfrentamos desafios significativos relacionados à eficiência dos sistemas de abastecimento. O Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria GO Associados, aponta em seu estudo de Perdas de Água mais recente que o Brasil desperdiça 40,31% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras.
Em meio ao avanço das mudanças climáticas e ao agravamento das secas e dos eventos extremos, o levantamento evidencia que a ineficiência no controle de perdas representa um problema ambiental, econômico e social de grande escala.
Soluções como o reuso de água em processos industriais, o aproveitamento de águas cinzas em edificações e o tratamento avançado de efluentes já demonstram resultados positivos e têm grande potencial de expansão. Em um cenário marcado pelo crescimento populacional, pelas mudanças climáticas e pela crescente pressão sobre os recursos naturais, o reuso deixa de ser uma alternativa e passa a ser parte essencial da solução.
A experiência no espaço mostra que é possível operar com níveis extremos de eficiência mesmo em condições adversas. Mais do que uma curiosidade tecnológica, trata-se de um exemplo concreto de inovação aplicada à sustentabilidade. Se no espaço cada gota conta, na Terra essa lógica também precisa se tornar prioridade.
Imagem: NASA
*Aguinaldo Brito Júnior
Coordenador de projetos do Consórcio PCJ – Engenheiro civil, com pós-graduação em Infraestrutura do Saneamento Básico.