08.08.2016 - Ensinamentos da Crise Hídrica: Bacias PCJ e do Alto Tietê fazem lição de casa para se precaver a eventos extremos

O sudeste brasileiro enfrentou entre 2014 e 2015 a pior seca dos últimos 90 anos, enquanto em 2016, os meses de maio e junho apresentaram até 300% a mais de chuvas esperadas para o período, causando alagamentos e transbordamentos de rios, um paradoxo quando se olha para os dois anos anteriores. Cientistas de diversas partes do mundo estão atentando que o aquecimento da Terra tem causado alterações no comportamento hidrológico, o que gera preocupação. As Bacias PCJ e do Alto Tietê são duas das regiões mais importantes industrial e economicamente do Brasil. Os reflexos de eventos hidrológicos extremos podem impactar o setor produtivo dessas regiões e, consequentemente, a economia nacional.

Representantes da equipe técnica do Consórcio PCJ participaram no último dia dois de agosto, em São Paulo, de ciclo de debates sobre “Crise Hídrica em São Paulo – Como foi administrada a pior seca da história paulista”, promovido pelo Instituto de Engenharia em parceria com a Sabesp e apoio institucional do CREA –SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo).

O coordenador de projetos da entidade, José Cezar Saad, e o assessor técnico, Flávio Forti Stênico, participaram de todo o encontro que abordou as obras e projetos realizados para a superação da crise hídrica, tendo como foco minimizar os impactos no abastecimento público na Região Metropolitana de São Paulo, além de projetos e obras para a interligação de bacias e sistemas hídricos, captação e ampliação da disponibilidade hídrica, ações de combate às perdas, gestão de pressões em redes de distribuição, entre outros.

Segundo a Sabesp, ao longo da crise hídrica, a gestão de perdas na RMSP proporcionou uma redução de 21m³/s (2013) para 13,6m³/s (2015) de perdas totais nos sistemas de distribuição, ou seja, redução de aproximadamente 7,4m³/s, o que representa 35%. Para as perdas reais, a redução foi de 5m³/s (36%), ou seja, caiu de 13,9m³/s em 2013 para 8,9m³/s em 2015.

A companhia também apresentou o panorama sobre o investimento em membranas ultra filtrantes no processo de tratamento de água para o abastecimento, em ETAs. A tecnologia possui como vantagens a diminuição de custos em área para a sua implantação, que chega a ser até três vezes menor que uma ETA convencional. No entanto, os custos de implantação das membranas são superiores, cerca de US$ 20 milhões por metro cúbico de água, enquanto o de uma ETA convencional é de US$ 16 milhões. O gasto com energia elétrica das membranas também é maior, até quatro vezes superior.

Grande São Paulo mais independente ao Cantareira?

No evento, a Sabesp relatou ainda que as obras executadas na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) no Sistema Adutor Metropolitano proporcionaram o aumento da flexibilização do atendimento da região abastecida pelo Sistema Cantareira, por outros Sistemas da RMSP, tais como os Sistemas Alto Tietê e Guarapiranga. Esta flexibilização representa um aumento da capacidade de cobertura dos sistemas da RMSP sobre a região de atendimento do Sistema Cantareira na ordem de 3m³/s, em 2012, para 8m³/s em 2015.

Nesse momento da apresentação, o coordenador de projetos do Consórcio PCJ, José Cezar Saad, contestou se isso não significaria que a Região da Grande São Paulo não estaria mais independente ao Sistema Cantareira. Os técnicos da Sabesp presentes disseram que as obras são permanentes, mas que isso não significa que a Sabesp operará permanentemente com esta flexibilização de 8m³/s.

Também foram abordados o incremento de vazões adicionais para o abastecimento da Grande São Paulo com as obras do Sistema São Lourenço e a transposição entre os reservatórios Jaguarí (Bacia do Paraíba do Sul) e Atibainha (Sistema Cantareira).

O Sistema São Lourenço contribuirá para o abastecimento de 2 milhões de pessoas na RMSP. O Sistema conta com adutoras capazes de levar 4,7m³/s de vazão ao longo do dia ou até 6,4m³/s de vazão por um período de até 16 horas/dia de operação, com o auxílio de um conjunto de 4 moto-bombas de 10.000CV. A obra vem sendo realizada através de uma Parceria Público Privada (PPP) de 25 anos com as empresas Camargo Correa e Andrade Gutierres (Consórcio São Lourenço), a um custo de aproximadamente 6 bilhões de reais.

Já o Sistema de transposição Jaguarí – Atibainha, será capaz de reverter uma vazão de 5 a 8,5 m³/s tanto do Sistema Cantareira para o Vale do Paraíba, assim como do Vale do Paraíba para o Sistema Cantareira (bidirecional), a obra possui aproximadamente 20 Km de extensão com tubos de até 2,20m de diâmetro.

A Grande São Paulo ainda receberá o reforço de até 2,5m³/s de vazão do Rio Itapanhaú, quando essas obras de direcionamento forem concluídas.

Para o diretor metropolitano da Sabesp, Eng. Paulo Massato, “a crise hídrica deixou um grande aprendizado, proporcionou maior consciência para o uso racional da água, assim como a realização de obras estruturais para superá-la”, comentou. Exemplo disso, é que a em 2013 a Sabesp produzia e vendia 73m³/s de água, entretanto em 2016 este valor caiu para 58m³/s.

Bacias PCJ também fazem a lição de casa

Nas Bacias PCJ, ações de contingenciamento para a crise hídrica foram centrais para a superação do estresse no abastecimento provocado pela seca. Vários municípios investiram na reservação de água, como a construção de bacias de retenção. Piracicaba e Limeira, por exemplo, têm realizado forte trabalho nesse sentido. Cada um dos municípios possui 250 bacias de retenção implantadas. Limeira tem buscado financiamentos por meio de linhas do governo estadual e federal, e pretende instalar mais 150 bacias, o que vai fazer o município saltar esse número para 400. Bragança Paulista é um exemplo invejável, possui mais de 1.000 bacias implantadas.

Já Indaiatuba inaugurou um reservatório de água bruta, com capacidade para armazenar 1,3 bilhão de litros de água e atender 40% da população da cidade. Campinas também está planejando seu reservatório municipal e os estudos básicos devem ser concluídos até o final de 2016, segundo o presidente da Sanasa, Arly de Lara Romeo.

Os municípios da parte baixa das Bacias PCJ investiram em estudos sobre a qualidade e segurança de abastecimento por meio das cavas de mineração. Cordeirópolis, por exemplo, conseguiu atravessar a estiagem graças ao uso dessas águas.

No âmbito da educação ambiental, a população se sensibilizou com as campanhas de racionalização promovidas pelos serviços de água e pelo próprio Consórcio PCJ, o que gerou uma economia de água em torno de 20%.

Essa queda de consumo, por sua vez, atrelado aos impactos da crise hídrica, trouxe à tona novamente a necessidade de se debater tarifas reais nos serviços de abastecimento público devido às perdas financeiras que poderiam comprometer os investimentos futuros. Muitos municípios tiveram de reajustar as tarifas a fim de garantir a sobrevivência financeira e assegurar o fornecimento de água futura para a população. O tema é polêmico e ainda gera debates, porém, o poder público está sensibilizado sobre a necessidade de aportes financeiros para a garantia de água futura.

É importante enaltecer que as Bacias PCJ em 25 anos de atuação do Consórcio PCJ, reduziu suas perdas hídricas de 50 para 37%, o tratamento de esgoto passou de 3 para 75% e com alguns municípios implantando sistemas modernos com membranas ultra filtrantes que permite gerar água de reuso de extrema qualidade, como o caso da EPAR (Estação de produção de água de reuso) da Sanasa Campinas no Rio Capivari. Essa água será comercializada com a concessionária do Aeroporto de Viracopos, para reuso em sanitários e outras atividades não nobres.

Durante a crise hídrica, o Consórcio PCJ apresentou e auxiliou os municípios e empresas associados em diversas atividades com o objetivo de assegurar a disponibilidade de água para o abastecimento público e atividades agrícolas e industriais. A entidade entrou em contato com consulados de países referência em gestão de disponibilidade de água escassas com o objetivo de trazer novas tecnologias para a região. Exemplo disso, foi a realização de rodada de negócios com empresas judias e a comitiva à Israel e à feira WATEC, considerada uma das mais importantes do setor no mundo.

O Consórcio PCJ foi uma das primeiras entidades a discutir o uso de água dessalinizada como alternativa ou complemento ao abastecimento público. À época, a entidade foi muito questionada sobre a viabilidade dessa medida, porém, atualmente, Cubatão no litoral de São Paulo, além dos Estados do Paraná, Rio de Janeiro e Paraíba estão avançando com estudos nessa área.

Pesquisadores acreditam que os eventos hidrológicos extremos não são mais uma possibilidade, mas sim uma realidade e tendem a serem mais constantes no futuro. Isso gera um novo desafio à gestão dos recursos hídricos, que é a de aprender a lidar e gerir os extremos, tanto de cheias como de secas. A crise hídrica, talvez, tenha feito a comunidade e o poder público a darem o primeiro passo nesse sentido.

IMG_3149